Sua mulher foi levada por tsunami e ele passou anos mergulhando para estar perto dela

Yasuo Takamatsu aprendeu a mergulhar aos 50 e poucos anos, depois de acompanhar mergulhadores que procuravam vítimas do tsunami Yasuo Takamatsu Duas vezes por ...

Sua mulher foi levada por tsunami e ele passou anos mergulhando para estar perto dela
Sua mulher foi levada por tsunami e ele passou anos mergulhando para estar perto dela (Foto: Reprodução)

Yasuo Takamatsu aprendeu a mergulhar aos 50 e poucos anos, depois de acompanhar mergulhadores que procuravam vítimas do tsunami Yasuo Takamatsu Duas vezes por mês, há mais de 13 anos, Yasuo Takamatsu embarca em um pequeno barco de pesca no porto de Onagawa, na província de Miyagi, no nordeste do Japão, e segue alguns quilômetros mar adentro. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp A rotina é sempre a mesma: ele coloca a máscara de mergulho, o cilindro de ar e o cinto de lastro. Quando o barco já está distante da costa, Takamatsu mergulha nas águas frias. A cada mergulho, ele retorna ao mesmo mar onde perdeu a sua mulher, Yuko. O tsunami O tsunami foi provocado por um forte terremoto submarino de magnitude entre 9.0 e 9.1, ocorrido ao largo da costa nordeste do Japão Getty Images via BBC Yuko foi arrastada pela água do telhado do banco onde trabalhava quando o tsunami de 2011 atingiu a costa nordeste do Japão e destruiu tudo pelo caminho. A onda gigantesca avançou quase 10 km para o interior. Naquela manhã, Takamatsu havia deixado Yuko no trabalho. Durante o curto trajeto de carro, os dois conversaram sobre o que fariam para o jantar. Quando as sirenes de alerta de tsunami começaram a tocar, Yuko e 12 colegas subiram para o telhado do prédio. De lá, enviou uma mensagem ao marido: "Você está bem? Quero ir para casa." Agora no g1 Ao ler a mensagem, Takamatsu acreditou que Yuko estava em segurança. Mas, no dia seguinte, quando conseguiu chegar ao hospital municipal onde os sobreviventes estavam sendo acolhidos, descobriu que ela não estava lá. "Me disseram que ela tinha sido levada pelo tsunami", diz Takamatsu. "Depois disso, eu simplesmente não conseguia ficar de pé. Perdi todas as minhas forças, como se elas também tivessem sido levadas pela água." Yasuo, Yuko e os filhos em uma fotografia de família. As duas crianças estavam na escola e sobreviveram ao desastre Hiromi Tanoue Nos dias e semanas seguintes, à medida que as águas recuaram, milhares de corpos foram encontrados ao longo da costa do Japão. Mas muitas vítimas, entre elas Yuko, continuaram desaparecidas. Durante dois anos, Takamatsu acompanhou mergulhadores da Guarda Costeira japonesa nas buscas por corpos, objetos pessoais e lembranças levados pelo tsunami. Até que decidiu aprender a mergulhar. "Aprendi a mergulhar. Sentia que, se continuasse mergulhando, um dia poderia encontrá-la", afirma Takamatsu. Ele nunca parou de mergulhar. Já fez mais de 760 mergulhos, desde o fim dos seus 50 anos e ao longo dos seus 60 anos. Yasuo Takamatsu em um de seus primeiros mergulhos, em 2014 Getty Images Os mortos entre os vivos No Japão, os mortos continuam presentes no cotidiano por meio de rituais e práticas de lembrança, mesmo muito tempo depois da morte. Na tradição Budista, a prática conhecida como Kuyō inclui rituais como fazer oferendas e rezar diante de um túmulo ou altar, com o objetivo de proporcionar paz e bem-estar aos entes queridos que morreram. Mas como os restos mortais de Yuko nunca foram encontrados, Takamatsu não pôde prestar esse tipo de homenagem diante de um túmulo. No lugar disso, o que começou como uma busca acabou se transformando em um ritual próprio, uma forma de manter viva a lembrança e a ligação com ela. "Depois de mergulhar tantas vezes, comecei a sentir que ela talvez estivesse por perto", diz Takamatsu. "É um pouco diferente de visitar um túmulo, porque ela não está em um. Para mim, é mais como ir ao encontro dela." Yasuo Takamatsu em um mergulho em 2014 Getty Images A fé de Takamatsu foi testada pelo desastre. Quando mergulha em águas profundas e vê os estragos deixados por anos de desastres naturais, Takamatsu sente tristeza. "Quando olho para os destroços, penso: 'Ela não teria conseguido voltar à superfície no meio de tudo isso.' E, quando penso nisso, sinto que poderia chorar." Mesmo assim, Takamatsu não odeia o mar. Com o tempo, passou a aceitar que desastres naturais são inevitáveis e estão além do controle humano. "Não é que eu tenha raiva do mar. Naquele momento, houve um tsunami e o mar estava revolto. Mas, por outro lado, dali também vêm muitos alimentos deliciosos. E a paisagem é bonita." De certa forma, Takamatsu expressa uma atitude comum entre pessoas acostumadas a conviver com desastres naturais recorrentes. Na região de Tohoku, onde ele vive, na costa do Pacífico, terremotos e tsunamis não são raros. Santuários e destroços que ainda permanecem ao longo da costa servem como lembrança da força da natureza e de que os seres humanos também fazem parte desse ambiente natural. No trajeto de ida e volta dos mergulhos, Takamatsu é sorridente e simpático. Quando fala de Yuko, há um tom de humor irônico em sua voz. "Se nos encontrássemos, acho que, para minha surpresa, a primeira coisa que ela diria, provavelmente, seria: 'Você envelheceu'." Mas, durante os mergulhos, Takamatsu fica mais introspectivo. A 50 metros de profundidade, ele nada sobre uma paisagem submarina marcada pelos estragos de sucessivos desastres naturais. "Há todo tipo de formação no fundo do mar. Algumas parecem montanhas, e você pode flutuar sobre elas e observá-las lá de cima", conta. "A sensação é mesmo um pouco parecida com voar." Yasuo Takamatsu e Yuko em foto de casamento HIROMI TANOUE Takamatsu cresceu à beira desse mar, muito antes de conhecer Yuko. Aprendeu a nadar e a pescar ali, e o mar faz parte de sua vida desde que ele se lembra. Hoje, quando vê os destroços sob a água, Takamatsu os encara como parte do ciclo permanente de transformação da natureza. "Há carros que parecem parcialmente esmagados e outras coisas que acabaram se transformando em recifes artificiais. Os peixes vão até lá e, depois, aparecem os ovos." Quinze anos depois, o luto continua presente. E o mar também. Esse foi o 763º mergulho de Takamatsu. Em breve, ele voltará mais uma vez à água, para se sentir perto de Yuko.