Psicopatas podem mudar? Estudos mostram que empatia pode ser desenvolvida com instrução

Psicopatas podem mudar? Estudos mostram que empatia pode ser desenvolvida com instrução Adobe Stock Os psicopatas representam apenas cerca de 1% da populaçã...

Psicopatas podem mudar? Estudos mostram que empatia pode ser desenvolvida com instrução
Psicopatas podem mudar? Estudos mostram que empatia pode ser desenvolvida com instrução (Foto: Reprodução)

Psicopatas podem mudar? Estudos mostram que empatia pode ser desenvolvida com instrução Adobe Stock Os psicopatas representam apenas cerca de 1% da população geral, mas são responsáveis por uma parcela desproporcional dos crimes violentos. Diferentemente de outros distúrbios mentais, como sociopatia e transtorno de personalidade antissocial, os psicopatas tendem a apresentar características como ausência de remorso ou culpa, falta de empatia e um estilo de relação interpessoal charmoso e manipulador. Pode ser difícil imaginar como alguém sem muita empatia pode mudar. E os primeiros tratamentos psicológicos não foram bem-sucedidos. Mas avanços nas pesquisas estão mostrando que uma compreensão mais profunda da psicopatia pode ajudar a criar intervenções mais eficazes. Pessoas com psicopatia normalmente apresentam problemas em responder ao sofrimento dos outros, incluindo dificuldade em reconhecer expressões faciais de medo e tristeza. Se você já viu alguém se machucar gravemente, provavelmente teve uma reação aversiva. Seu cérebro terá reagido à dor dessa pessoa e seu corpo provavelmente terá mostrado sinais de excitação fisiológica. Sua frequência cardíaca pode ter aumentado ou você pode ter suado. Esses são sinais comuns de excitação fisiológica em resposta ao sofrimento de outra pessoa. Mas eles muitas vezes não aparecem em psicopatas. Quando meus colegas e eu pedimos a pessoas presas com histórico de violência que vissem fotos de expressões faciais de emoções de outras pessoas, aqueles que relataram mais características de psicopatia também demonstraram uma excitação fisiológica atenuada. Nosso estudo de 2019 descobriu que a pupila (o pequeno orifício preto no centro do olho que deixa entrar a luz, mas também aumenta de tamanho durante a excitação fisiológica) não mudou muito de tamanho entre as pessoas com traços psicopáticos mais acentuados quando elas viram fotos de pessoas com medo. Essas diferenças significam que algumas pessoas com esses traços podem ter dificuldade em aprender como suas ações fazem com que outras pessoas se sintam angustiadas ou com medo. Prisões e hospitais penais são locais onde pessoas com traços psicopáticos frequentemente são inseridas em programas de tratamento destinados a reduzir o risco de reincidência. Reduções modestas na reincidência geral foram relatadas após programas cognitivo-comportamentais oferecidos a pessoas na prisão com ou sem psicopatia ou outro transtorno de personalidade. Mas nem todos os programas de combate ao comportamento criminoso foram marcados pelo sucesso. Por exemplo, no Reino Unido, em 2017, o fracasso do Programa Básico de Tratamento de Criminosos Sexuais, elaborado pelo Serviço Prisional e de Liberdade Condicional de Sua Majestade (HMPPS) e aprovado para uso em 1992, com o objetivo de reduzir a reincidência, foi alvo de ampla divulgação. Desde então, o HMPPS introduziu um novo programa, Building Choices. Ele adota uma abordagem baseada em pontos fortes e focada em habilidades para melhorar o gerenciamento das emoções, relacionamentos saudáveis e senso de propósito. Diferentemente do anterior, este programa não foi concebido para abordar tipos específicos de crimes e tem mostrado alguns sinais promissores. Historicamente, pesquisadores consideraram esses programas menos eficazes na redução da reincidência quando oferecidos a pessoas com psicopatia. Na verdade, alguns estudos sugerem até que pessoas com psicopatia pioraram após o tratamento. Um desses programas, oferecido entre 1965 e 1978 na Divisão Oak Ridge de segurança máxima do Centro de Saúde Mental em Penetanguishene, Ontário, Canadá, utilizava a chamada “cápsula de encontro total”. Esses resultados geraram um alto grau de pessimismo entre cientistas e profissionais. Mas esse pessimismo pode ser injustificado. Talvez não seja surpreendente que a “cápsula de encontro total” não tenha se mostrado eficaz. A cápsula era “uma pequena câmara independente onde o sustento era fornecido por tubos nas paredes e da qual nenhum membro do grupo saía durante as sessões que duravam até duas semanas”. Os participantes estavam nus e não participavam voluntariamente. Havia poucos terapeutas profissionais, e o uso de força e humilhação era permitido. Historicamente, também tem havido muito pessimismo em relação ao tratamento de outros transtornos de personalidade. Isso é, em parte, um reflexo do estigma associado a esses transtornos. Mas também se deve ao fato de que as dificuldades de personalidade podem tornar mais difícil para as pessoas construírem relacionamentos, inclusive com os responsáveis por seu tratamento. Mas uma forma de terapia conhecida como terapia comportamental dialética tem se mostrado bem-sucedida na redução da automutilação em pessoas com transtorno de personalidade borderline (que não está associado à criminalidade). Esse tipo de terapia foi desenvolvido para ajudar as pessoas a lidar com emoções intensas e aprender habilidades interpessoais. Em outro estudo recente, o tratamento baseado na mentalização, que visa a capacidade da pessoa de compreender e regular os efeitos negativos dos pensamentos e sentimentos, levou à redução do comportamento agressivo em pessoas com transtorno de personalidade antissocial. Descobertas como essas sugerem que intervenções personalizadas são mais eficazes quando se trata de transtornos de personalidade. Como é o cérebro de um psicopata? Capazes de empatia? Uma consideração importante ao tratar psicopatas é que muitas vezes se presume que eles são incapazes de empatia. Mas essa suposição foi contestada por alguns estudos intrigantes, que sugerem que eles podem, na verdade, carecer de motivação para a empatia. Em um estudo com escaneamentos cerebrais de 2013, um grupo de cientistas da Universidade de Groningen, na Holanda, mostrou que, embora os psicopatas criminosos não sentissem automaticamente empatia pela dor de outras pessoas retratada em vídeos, seus cérebros geravam uma resposta empática semelhante à de não psicopatas quando instruídos a sentir o que as pessoas nos vídeos estavam sentindo. Este pode ser um passo importante para ajudar as pessoas com psicopatia a compreender melhor como suas ações podem magoar outras pessoas. Mas talvez os trabalhos mais promissores que sugerem que pessoas com psicopatia podem mudar tenham sido realizado com jovens. Embora crianças e jovens com menos de 18 anos não possam ser diagnosticados como psicopatas, características da psicopatia conhecidas como traços insensíveis e sem emoção podem ser avaliadas de forma confiável em crianças a partir dos dois anos de idade. Um estudo de 2018 adaptou intervenções parentais para serem mais eficazes para esse grupo de crianças de alto risco, com idades entre três e seis anos. Posteriormente, as crianças apresentaram reduções significativas nos problemas comportamentais, traços de insensibilidade emocional e agressividade. Os pesquisadores orientaram os pais a demonstrar mais carinho, sensibilidade e receptividade. Os pais também foram solicitados a se concentrar em estratégias baseadas em recompensas, em vez de punições, para incentivar as crianças participantes a serem mais receptivas ao sofrimento alheio. Um estudo de 2022 também relatou resultados positivos, mostrando melhorias no comportamento e nas relações pessoais dos adolescentes após uma intervenção com foco em estratégias parentais baseadas em pontos fortes (ajudando as crianças a entenderem em que são boas) em vez de punições. Portanto, trabalhos recentes estão oferecendo um vislumbre de um futuro mais otimista para a redução do comportamento agressivo e antissocial associado à psicopatia. Talvez a questão agora não seja mais se os psicopatas podem mudar, mas se podemos melhorar nossa capacidade de ajudá-los a mudar. Steven Gillespie prestou consultoria ao Ministério da Justiça do Reino Unido. Ele recebe financiamento do Economic and Social Research Council do Reino Unido.