Por que cubanos atravessam a Guiana para entrar no Brasil? Conheça a rota migratória que passa por Roraima
Conheça a rota migratória de cubanos que passa por Roraima Em meio à falta de energia, combustível e até alimentos em Cuba, cidadãos da ilha no Caribe dei...
Conheça a rota migratória de cubanos que passa por Roraima Em meio à falta de energia, combustível e até alimentos em Cuba, cidadãos da ilha no Caribe deixam o país em busca de refúgio no Brasil. A principal rota migratória passa pela Guiana e segue até Roraima, ao norte do país. Neste caminho, os cubanos são aliciados e explorados financeiramente por coiotes. 📊 Em apenas uma semana, no começo deste mês, 189 cubanos foram resgatados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), número quase duas vezes maior que a soma dos flagrantes dos dois últimos anos. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp Ao longo do percurso da Guiana ao Brasil, eles cruzam a fronteira entre os dois países em botes, atravessam áreas de mata, enfrentam fome e desidratação, separação de familiares, riscos e exploração financeira. Eles pagam até US$ 10 mil dólares pela viagem clandestina até Boa Vista - mesmo com a possibilidade de pedir refúgio de forma legal e gratuita. 🔍 No contexto da migração, "coiote" é o nome dado a pessoas ou grupos que cobram para facilitar a entrada irregular de migrantes em outro país. Cubanos saem de Havana, em Cuba, até a Guiana. Para chegar ao Brasil, atravessam fronteiras em botes e cruzam áreas de mata Arquivo O resgate crescente de cubanos vítimas de coiotes no Estado acompanha a estatística divulgada nesta semana pelo Ministério da Justiça. Pela primeira vez em uma década, os pedidos de refúgio feitos por cubanos em Roraima superaram os de venezuelanos (veja os dados no infográfico abaixo). No entanto, o aumento do fluxo expõe a ausência de uma estrutura organizada pelo governo brasileiro para acolhimento, como existe para os venezuelanos. Para sair de Cuba, o g1 apurou que os cubanos partem de Havana, capital do país, para Georgetown, capital da Guiana. Depois, seguem até Lethem, na fronteira com o Brasil, e fazem em botes a travessia irregular até Bonfim. (confira o trajeto abaixo) A desinformação das vítimas é explorada, sendo um dos pilares do esquema dos coiotes, segundo o agente da PRF, Isaías Magalhães. Ele participou da maioria dos resgates de cubanos em Roraima. "Espalham informações falsas, fazem ameaças e convencem essas pessoas de que precisam realizar uma travessia clandestina", diz. Ainda segundo a polícia, o aumento dos resgates destas vítimas de coiotes reflete a combinação entre o aumento da migração cubana e o reforço das fiscalizações na BR-401. Veja a rota percorrida pelos cubanos rumo ao Brasil Arte/g1 'Nos abandonaram' Um dos cubanos que recorreu aos coiotes e fez esse trajeto até o Brasil foi Ávila Basulto, de 28 anos. Ele está entre os 189 resgatados entre 8 e 11 de junho. O jovem disse que deixou o país de origem porque, segundo ele, lá 'não há liberdade'. Como muitos outros migrantes, chegou a Roraima apenas com uma mala pequena e teve que pagar US$ 300 (cerca de R$ 1,5 mil) para sair de Lethem e chegar a Boa Vista, mas foi abandonado na estrada. "Depois que cruzamos o rio, os responsáveis pela viagem nos dividiram em pequenos grupos e nos colocaram em táxis. Os motoristas fugiam da polícia e, em determinado momento, nos abandonaram", relatou. Basulto conta que não sabia que poderia solicitar refúgio gratuitamente à Polícia Federal, sem precisar recorrer aos coiotes. Ponte dos Macuxis é cruzada a pé por cubanos que são abandonados por coiotes pelo caminho Fabrício Araújo/G1 RR Embora a migração de cubanos seja possível de forma legal no Brasil, muitos cubanos entram de forma irregular por serem enganados por coiotes. Um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) cita que cubanos pagam até US$ 10 mil, o equivalente a mais de R$ 50 mil pelo trajeto. O professor e pesquisador de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima (UFRR), João Carlos Jarochinski, avalia que as restrições migratórias em Cuba favorecem a atuação dos coiotes. "Se compararmos uma viagem regular com uma organizada por coiotes, o custo da travessia irregular costuma ser muito maior. Mesmo assim, essas pessoas conseguem vender esse serviço porque os migrantes têm medo de chegar ao destino e não conseguir entrar no país". Enquanto em Pacaraima, na principal porta de entrada dos venezuelanos no Brasil, há uma estrutura de atendimento a menos de um quilômetro da fronteira para orientar e regularizar a situação migratória, em Bonfim a entrada dos cubanos é exposta à atuação dos coiotes. "O Brasil sabe que esse fluxo migratório existe, porque essas pessoas procuram regularização em Boa Vista. No entanto, não há uma estrutura de atendimento mais efetiva", criticou o pesquisador. 108 cubanos são resgatados em 1 dia na maior operação contra coiotes na fronteira Vistos de meio milhão e regras mais duras: Trump age para reduzir também imigração legal A história por trás dos números: como é a jornada dos venezuelanos acolhidos na fronteira Migrantes cubanos vítimas de coiotes em Roraima PRF/Divulgação 🛬Rota pela Guiana 🚐 ⚠️ Em 2026, a PRF resgatou 225 cubanos vítimas dos coiotes em Roraima. O número é mais que o dobro do total registrado em 2024 e 2025, que somam 97 resgates, segundo levantamento da corporação, responsável pela maior parte das ocorrências. O agente da PRF Isaías Magalhães avalia que Roraima vive uma nova fase migratória. Desde 2015, o estado se tornou a principal porta de entrada de venezuelanos no Brasil. Agora, o aumento da chegada de cubanos pela fronteira com a Guiana desenha uma nova dinâmica migratória. "Já vimos isso na fronteira com a Venezuela, um fluxo que continua acontecendo até hoje. Agora, também observamos um novo movimento migratório na fronteira com a Guiana [por Bonfim]", resumiu. Não há dados públicos que indiquem quantos cubanos permanecem no Brasil após entrar pela fronteira de Roraima. Segundo a Abin, até 2024 o estado era utilizado principalmente como rota de trânsito para o Sul e Sudeste do país, além de Uruguai e Chile. Muitos também tinham os EUA como destino final. O aumento dos pedidos de refúgio de cubanos no Brasil coincide com a política mais restritiva do governo de Donald Trump. Infográfico mostra que cubanos assumiram protagonismo nos pedidos de refúgio no Brasil em 2025 Arte/g1 🔴 Segundo o governo federal, os pedidos de refúgio não correspondem, necessariamente, ao número de novas chegadas ao país em 2025. Isso porque parte das solicitações pode ter sido feita por cidadãos que ingressaram no Brasil em anos anteriores, mas só formalizaram o pedido de refúgio no ano passado. 🛶Rio, 🌳mata e 💀riscos Migrantes ouvidos pelo g1 relataram que, para sair de Cuba, precisam comprovar às autoridades locais que retornarão ao país. Normalmente, essa exigência é cumprida com a apresentação de uma passagem aérea de volta durante o embarque. Na Guiana, eles podem permanecer legalmente por até 30 dias como turistas. O pesquisador Jarochinski afirma que diversas nações próximas à Cuba, como os Estados Unidos, adotaram restrições à entrada dessa população. Diante disso, muitos buscam o que ele chama de "destinos possíveis", como a Guiana. No entanto, mesmo na Guiana, também há restrição de circulação. O g1 apurou que de Georgetown, os estrangeiros não podem seguir até as regiões de fronteira sem autorização do governo local. É a partir daí que os coiotes agem e levam os migrantes até Lethem. Os coiotes levam os migrantes até Lethem, cidade guianense que faz fronteira com o Brasil. Nalu Cardoso/g1 RR Lethem é a única cidade da Guiana que faz fronteira com o Brasil. O inglês é o idioma oficial. No comércio, as moedas mais utilizadas são o dólar guianense e o americano. A cidade é separada de Roraima apenas pelo rio Tacutu. Para entrar regularmente no Brasil, viajantes que saem de Lethem, na Guiana, cruzam a ponte sobre o rio. Em seguida, passam pelos postos de fiscalização da Polícia Federal e da Receita, já em território brasileiro. Na travessia irregular, o percurso é outro. Como a fronteira fecha das 19h às 7h, os coiotes costumam aproveitar a madrugada para transportar os migrantes pelo rio Tacutu. Segundo relatos de cubanos ao g1, as travessias geralmente começam por volta das 23h ou meia-noite. Antes de chegar ao rio, eles seguem por rotas alternativas em áreas de mata no lado guianense. A travessia é feita em botes ou pequenas embarcações e custa cerca de US$ 180 (R$ 920) por pessoa. Ao chegarem a Bonfim, os grupos são divididos em carros superlotados. Veículos com capacidade para cinco ocupantes transportam entre dez e 15 migrantes em alta velocidade. "Foi a pior experiência da minha vida., relatou Evelio Vázquez, de 45 anos, um cubano que criou informalmente uma associação para apoiar os conterrâneos em Boa Vista. Rio Tacutu divide Lethem, na Guiana, e Bonfim, em Roraima. Migrantes aliciados por coiotes cruzam rio de bote à noite Vinícius Assis/Rede Amazônica O mecânico Thomas Joel Franco contou que passou cinco dias praticamente sem comer nem dormir durante a viagem entre Georgetown e o Brasil. "Tomava muito pouca água e comia bolacha para conseguir seguir caminhando, passando por poças d'água, rios e todo tipo de lugar", disse. Quando são resgatados pela PRF, muitos migrantes apresentam sinais de desnutrição, desidratação, doenças respiratórias e forte abalo físico e emocional - alguns após semanas de viagem. Entre eles, há idosos, mulheres grávidas e crianças. Cuba enfrenta uma crise econômica e energética que se agravou nos últimos anos. A escassez de energia compromete o funcionamento de hospitais, provocou o fechamento de escolas e repartições públicas e afeta o turismo. "O objetivo de quase todo jovem é conseguir sair do país. Você passa até 36 horas sem energia para ter apenas duas horas de luz. Não é uma vida que eu desejaria para ninguém", explicou Eliezer Pantoja, de 23 anos, que vive em Roraima há 4 meses. Ávila Basulto e Eliezer Pantoja, cubanos que vivem em Roraima Arquivo Os cubanos vêm sofrendo há meses com apagões extensos — alguns deles em escala nacional, que podem durar cerca de dois dias e deixam a população mais vulnerável, sem internet e acesso à informação. O país é uma ilha e não possui fronteiras terrestres. Sem acolhida, fluxo cresce sem amparo Em Pacaraima, o processo de migração de venezuelanos é conduzido pela Operação Acolhida, a força-tarefa do Exército criada em 2018 pelo governo federal, com apoio de organizações internacionais, sendo responsável pelo acolhimento e interiorização de venezuelanos no Brasil. Em Bonfim, não há nenhum tipo de estrutura com essa finalidade. Após serem resgatados, os cubanos são encaminhados à sede da PF em Boa Vista. Lá, passam por identificação e são multados em R$ 100 por entrada irregular no país. Em seguida, são liberados para permanecer no Brasil ou seguir viagem para outro destino. Uma força-tarefa, que inclui o Exército Brasileiro, trabalha na acolhida e regularização de venezuelanos em Pacaraima (RR) Fábio Tito/g1 Além disso, na capital Boa Vista funciona o Posto de Recepção, Identificação e Triagem (Pritg), espaço operado pela Operação Acolhida para a regularização migratória de venezuelanos. Atualmente, a estrutura também passou a receber cubanos em busca de atendimento e orientação. Evelio avalia que a demanda em Bonfim justifica a criação de um espaço para atender os migrantes cubanos. "Precisamos fortalecer nossas organizações para mostrar nossas necessidades e nossa vontade de contribuir com a sociedade brasileira". Em Roraima há cinco meses, ele criou um grupo no WhatsApp onde compartilha o que aprendeu sobre a migração ao Brasil. "Foi muito frustrante perceber que eu havia sido induzido pelo medo", afirma. Hoje, o grupo reúne mais de 380 cubanos, entre interessados em migrar para o Brasil e os que já estão no país. "Os coiotes dizem que o cubano não pode entrar legalmente no Brasil, que será preso ou deportado. Como chegamos sem conhecer a legislação, acreditamos nessas informações., afirmou Evelio, que tenta com a iniciativa do grupo online combater a desinformação. O que diz o governo O governo federal informou que os migrantes cubanos que chegam ao Brasil têm acesso às políticas públicas voltadas à promoção de direitos e à integração social. O g1 questionou o governo federal sobre a adoção de medidas para ampliar a assistência aos migrantes e aguardava retorno até a publicação desta reportagem. Desde o início deste mês, cerca de 60 cubanos - correspondente a 27% dos 225 migrantes cubanos resgatados neste ano - em situação de vulnerabilidade procuraram atendimento no Alojamento de Trânsito da Assistência Social, em Roraima. O governo da Guiana também foi procurado, por meio do consulado no Brasil, e foi questionado sobre a atuação e repreensão à atuação de coiotes em Lethem. O g1 não obteve retorno. Fronteira do Brasil e Guiana. Nalu Cardoso/g1 RR Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.