O que acontece quando um clone é clonado repetidas vezes? Ciência finalmente tem a resposta

Clonagem repetida em camundongos tem limite, aponta estudo Uma dúvida antiga da ciência acaba de ganhar uma resposta mais clara: afinal, até onde dá para ir...


O que acontece quando um clone é clonado repetidas vezes? Ciência finalmente tem a resposta
O que acontece quando um clone é clonado repetidas vezes? Ciência finalmente tem a resposta (Foto: Reprodução)

Clonagem repetida em camundongos tem limite, aponta estudo Uma dúvida antiga da ciência acaba de ganhar uma resposta mais clara: afinal, até onde dá para ir clonando um animal repetidamente? Um estudo publicado nesta terça-feira (24) na prestigiada revista científica "Nature Communications" mostra que esse processo tem limite, pelo menos em pequenos mamíferos roedores. Ao acompanhar camundongos clonados ao longo de 20 anos, pesquisadores japoneses descobriram que a clonagem sucessiva NÃO pode ser mantida indefinidamente em mamíferos. 🧬O motivo? Porque o DNA vai acumulando erros ao longo das gerações (entenda mais ABAIXO). Na prática, segundo o estudo, os clones continuam parecidos e até vivem normalmente por um bom tempo. Mas, aos poucos, algo sempre começa a dar errado. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça O estudo produziu mais de 1.200 camundongos clonados a partir de um único animal doador ao longo das duas décadas. ➡️E a sua descoberta central é que essas mutações genéticas de grande escala se acumulam progressivamente a cada geração de clonagem, até um ponto em que os animais simplesmente deixam de nascer vivos. "Na reprodução clonal, todas as mutações do animal original são transmitidas para a próxima geração. Além disso, novas mutações continuam se acumulando ao longo das gerações", explica ao g1 Teruhiko Wakayama, professor da Universidade de Yamanashi (Japão) e um dos autores do estudo. "Embora cada mutação tenha pouco ou nenhum efeito no animal adulto, acreditamos que o acúmulo dessas mutações acabou ultrapassando um limite, levando à incapacidade de reprodução". Filhotes que nasceram após o cruzamento de um camundongo clonado da 50ª geração. Universidade de Yamanashi Como o experimento funcionou O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Yamanashi, no Japão. O grupo começou os experimentos em janeiro de 2005 com uma única camundonga doadora e foi clonando os animais sucessivamente, geração após geração, por quase duas décadas. A técnica usada se chama transferência nuclear de células somáticas. Nesse processo, o núcleo de uma célula comum do corpo (aquela que carrega o DNA) é retirado e inserido em um óvulo esvaziado. Esse óvulo reconstituído é então implantado no útero de uma fêmea receptora, que leva a gravidez até o fim. 🐭 A cada nova geração, as células dos clones mais recentes eram usadas para gerar a geração seguinte. Nas primeiras gerações, tudo parecia correr bem. Os camundongos nasciam com peso normal, viviam em média dois anos (tempo esperado para a espécie) e a taxa de sucesso da clonagem chegou a 15,5% na 26ª geração. Por isso, os pesquisadores chegaram a acreditar, em um primeiro momento, que o processo poderia continuar indefinidamente. LEIA TAMBÉM: O paradoxo da reciclagem no Brasil: por que os trabalhadores que mais contribuem são os que mais sofrem? Novo cigarro? As cidades que estão proibindo propagandas ligadas a combustíveis fósseis Água pode se tornar novo alvo da guerra no Oriente Médio Contudo, a partir da 27ª geração, a taxa de nascimentos começou a cair. Na 57ª geração, apenas 2,2% dos embriões transferidos resultavam em filhotes vivos. Já na 58ª geração, todos os camundongos que nasceram morreram no dia seguinte. Para entender por quê, a equipe fez sequenciamento completo do genoma de animais de diferentes gerações, uma leitura detalhada de todo o material genético dos clones. O resultado mostrou que o problema não estava em erros na forma como os genes eram ativados ou silenciados, mas no DNA em si. A cada nova geração clonada, o genoma acumulava em média 70 pequenas mutações pontuais e cerca de 1,5 alterações estruturais maiores. Até a 23ª geração, esses erros não pareciam graves o suficiente para comprometer os animais. Depois desse ponto, porém, problemas mais sérios começaram a aparecer: perda de cromossomos inteiros, grandes trechos do DNA reorganizados de forma errada e genes importantes completamente inativados. Na 57ª geração, os animais carregavam cerca de 30 genes com perda total de função e outros 50 com mutações que alteravam as proteínas produzidas, um acúmulo que eventualmente ultrapassou o limite que o organismo consegue tolerar. Camundongo clonado da 56ª geração, resultado de repetidas clonagens, conseguiu se desenvolver e chegar à fase adulta. University of Yamanashi Clones continuavam parecendo saudáveis Outra coisa que chamou atenção dos pesquisadores (e um dos achados mais inesperados do estudo) foi o fato de que os camundongos que conseguiam nascer, mesmo nas gerações mais tardias, eram aparentemente normais e viviam o tempo esperado para a espécie. Mas como isso seria possível se o DNA estava tão danificado? Segundo Wakayama, a resposta está em uma seleção natural silenciosa que ocorria dentro do útero: os embriões que herdavam as mutações mais graves simplesmente não chegavam a nascer, eram perdidos antes ou logo após a implantação. Apenas aqueles que, por sorte, não receberam as combinações mais letais conseguiam chegar ao fim da gestação. E quem sobrevivia ao nascimento chegava ao mundo, aparentemente, sem os danos mais críticos. Por isso, para testar se os danos acumulados poderiam ser revertidos, os pesquisadores cruzaram fêmeas clonadas de gerações tardias com machos normais. O contraste foi marcante. Fêmeas da 20ª geração de clonagem tiveram ninhadas de tamanho normal: em média 9,9 filhotes, comparável aos 10,3 dos controles. Mas fêmeas da 50ª e da 55ª geração tiveram ninhadas muito menores: 2,8 e 2,2 filhotes em média, respectivamente. Quando os filhos dessas fêmeas de geração tardia se reproduziram normalmente entre si, porém, as ninhadas voltaram a ter cerca de 7 filhotes. As placentas dos netos também voltaram a ter tamanho próximo ao normal, ao contrário das placentas grandes que são características dos clones em todas as gerações. Segundo os pesquisadores, isso mostra que a reprodução sexual tem uma função ativa de correção genética. "Na reprodução sexual, apenas metade dos genes dos pais é transmitida aos descendentes. Os que herdam genes prejudiciais morrem, enquanto apenas os que herdam genes benéficos sobrevivem", diz Wakayama. Ou seja, durante a formação dos óvulos e espermatozoides, as mutações são distribuídas ao acaso entre os gametas. Na fertilização, o material genético de dois indivíduos se combina e esse processo embaralha e dilui os erros acumulados, como uma espécie de reinicialização genética que a clonagem, sozinha, não consegue fazer. Camundongos da 50ª geração de clonagem nasceram com aparência saudável e chegaram à fase adulta. Universidade de Yamanashi LEIA TAMBÉM: Meteorito cai na Alemanha e é confundido com míssil iraniano Nasa reestrutura programa Artemis após múltiplos atrasos: meta é pouso na Lua em 2028 Neandertais machos cruzaram mais com mulheres Homo sapiens, indica estudo Futuro da clonagem Os resultados de toda essa empreitada de mais de duas décadas confirmam na prática uma previsão teórica feita pelo geneticista Hermann Muller nos anos 1960, conhecida como Catraca de Muller. A ideia central é simples: em linhagens que se reproduzem sem sexo, mutações prejudiciais se acumulam de forma irreversível, geração após geração. Com o tempo, esse acúmulo inevitavelmente compromete a viabilidade da espécie. ❗E o estudo da Universidade de Yamanashi oferece justamente a primeira demonstração empírica direta de que esse fenômeno ocorre em mamíferos. Desde o nascimento da ovelha Dolly, em 1997, a clonagem de mamíferos tem sido discutida como ferramenta para preservar espécies ameaçadas de extinção, para a medicina e para a produção em escala de animais com características valorizadas, como o gado wagyu japonês. O estudo, contudo, não descarta essas possibilidades, mas deixa claro que a clonagem em série tem limites biológicos reais que precisam ser levados em conta em qualquer aplicação prática. "O fenômeno desse limite foi demonstrado pela primeira vez neste estudo, e seus detalhes ainda são totalmente desconhecidos", acrescenta Wakayama. "A partir de agora, precisamos demonstrar que as mutações geradas pela clonagem não representam problemas para sua aplicação na pecuária". 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