Ilha com 200 habitantes em SP tem peixe azul-marinho 'instagramável' e construiu capela em apenas 2 dias; veja

Papo Tribuna - 08/11/2025 A cerca de 30 minutos de barco do Centro de Santos, existe um lugar onde muita gente ainda deixa a porta destrancada, crianças brinca...

Ilha com 200 habitantes em SP tem peixe azul-marinho 'instagramável' e construiu capela em apenas 2 dias; veja
Ilha com 200 habitantes em SP tem peixe azul-marinho 'instagramável' e construiu capela em apenas 2 dias; veja (Foto: Reprodução)

Papo Tribuna - 08/11/2025 A cerca de 30 minutos de barco do Centro de Santos, existe um lugar onde muita gente ainda deixa a porta destrancada, crianças brincam na rua e a sensação de insegurança típica das grandes cidades praticamente não faz parte da rotina. É a Ilha Diana, comunidade caiçara com cerca de 200 moradores, cercada por Mata Atlântica e manguezais, no estuário santista. Além do clima de “refúgio”, o local chama atenção por uma regra incomum — não aceita novos moradores de fora —, pela história da capela erguida em tempo recorde e por uma receita tradicional que virou atração: o peixe azul-marinho, prato de cor intensa e altamente “instagramável”. Quem chega pela primeira vez costuma dizer que a travessia parece “um portal”: o cenário urbano fica para trás e dá lugar a um vilarejo simples e acolhedor, onde a vida segue em outro compasso — e onde há uma regra curiosa: ninguém de fora pode simplesmente comprar uma casa e se mudar. “Ninguém pode morar aqui. Entramos com um acordo para não sair fora do controle, cada um vir, construir, desmatar. Se você vem e casa com alguém, a gente dá um jeito e constrói uma casa. Agora, de fora, comprar uma casa não pode”, explica a líder comunitária Flávia Lemos. ✅ Clique aqui para seguir o novo canal do g1 Santos no WhatsApp. Ilha Diana é uma comunidade caiçara cercada por Mata Atlântica e manguezais, em Santos. Reprodução/TV Tribuna O acesso à Ilha Diana é feito apenas por barco, em um trajeto que dura cerca de 30 minutos. E essa limitação ajuda a explicar por que o lugar ainda preserva hábitos quase desaparecidos no continente: vizinhos que cuidam uns dos outros, portas destrancadas e crianças brincando na rua. “Aqui a gente pode deixar a casa aberta. Se chove, o vizinho vai lá e fecha, tira a roupa do varal. Lá fora não tem isso não”, conta Flávia. A comunidade fica em uma área estratégica, vizinha de Guarujá e Bertioga, em meio ao estuário e muito perto do complexo portuário — o que torna o contraste ainda mais impressionante: um refúgio natural colado a uma das regiões mais movimentadas do Brasil. Ilha Diana tem aproximadamente 200 habitantes em Santos Reprodução/TV Tribuna Origem A ilha não tem registro oficial de fundação, mas começou a ser ocupada por volta de 1930, quando pescadores foram desalojados da área onde hoje fica a Base Aérea de Santos. O local chegou a ser chamado de Ilha dos Pescadores, mas passou a ser conhecido como Ilha Diana por estar na região do Rio Diana. Ilha Diana não tem registro oficial de fundação, mas começou a ser ocupada por volta de 1930 Reprodução/TV Tribuna Além da história real, a ilha carrega também um toque de mistério: a lenda da Índia Diana, que teria vivido nas imediações e dado nome ao rio — e, consequentemente, ao território. A Ilha Diana tem hoje cerca de 200 moradores com residência fixa — e muitos vivem ali há décadas. O carpinteiro Armando de Souza é um deles. “Cinquenta anos morando aqui. A vida mudou muito. A calçada que fizeram ficou melhor para nós. Tenho três filhos. É muito raro eu sair daqui e ir para a cidade. Não troco minha vida daqui de jeito nenhum. É muito melhor morar aqui. Trabalhei 43 anos em Guarujá, mas só para trabalhar… para morar não gosto, não. Temos muita tranquilidade. Ninguém mexe em nada”, afirma. Pesca, porto e um alerta O coração econômico e cultural da Ilha Diana sempre foi a pesca artesanal. Mas a realidade mudou — e isso aparece no discurso de quem vive do mar. O pescador Eduardo Hipólito lembra com saudade de quando o estuário era abundante. “Nós pescávamos, todo mundo era feliz, pescador de verdade. O pessoal vivia da pesca”, recorda. Expansão portuária e o aumento da pressão sobre os recursos naturais prejudicam pesca artesanal na Ilha Diana Reprodução/TV Tribuna Ele aponta que a expansão portuária e o aumento da pressão sobre os recursos naturais reduziram os estoques. “Hoje, com a expansão portuária, a gente ficou sem área de pesca, os estoques diminuíram e veio a sobrepesca. O porto fica com deficiência de peixes por conta do desequilíbrio. A natureza tem um ciclo que precisa ser respeitado”, explica. Segundo Eduardo, mesmo com as dificuldades, a ilha segue ligada à atividade. “Todo mundo na Ilha Diana vive da pesca, direta ou indiretamente. Todos complementam a renda familiar pescando. Tudo que eu tenho é da pescaria”, diz. Infância ao ar livre Um dos traços mais encantadores do lugar é a forma como a comunidade preserva uma infância “à moda antiga”: correr, brincar, se esconder — sem a dependência total de telas. “Aqui você tem uma infância, você corre, você brinca. A infância de correr, de bater cara, de se esconder ainda existe aqui”, diz Eduardo. População da Ilha Diana preserva uma infância “à moda antiga” Reprodução/TV Tribuna “A criança é criança, ela brinca e se diverte. Aqui as crianças ficam na rua brincando… fora daqui, não dá para fazer isso, pois ficam na televisão, em um videogame”, completa Flávia. A ilha tem uma escola com apenas 14 alunos, reunindo turmas do 1º ao 5º ano e educação infantil. “Tem uma sala do primeiro ao quinto ano e tem o jardim um, dois e três separados. Temos todos os professores: música, arte, inglês”, conta Flávia. Capela construída em tempo recorde Capela do Bom Jesus da Ilha Diana, foi construída em tempo recorde por meio de um mutirão Reprodução/TV Tribuna O cartão-postal do local, a Capela do Bom Jesus da Ilha Diana, foi construída em tempo recorde e atrai cerca de 2 mil pessoas na festa mais tradicional da comunidade. Segundo Flávia, a construção foi feita em mutirão. “A capela foi construída em um fim de semana. Uma ONG de Jundiaí se juntou com os moradores e todo mundo participou da construção”, relata. Ela afirma que o evento religioso mobiliza toda a ilha. “Ano passado foram 2 mil pessoas na festa. É muito trabalhoso, mas é gratificante ver as pessoas vindo até a nossa ilha… é bom para todos, pois move a comunidade inteira”, diz. A Capela do Bom Jesus da Ilha Diana é o cartão-postal do local Reprodução/TV Tribuna Local tranquilo, mas saúde precária Apesar do clima acolhedor, o isolamento cobra um preço quando o assunto é saúde. “Se o morador passa mal, tem que rezar muito, colocar no barco e sair correndo”, desabafa Flávia. Ela conta que viveu um episódio dramático na família. “Eu mesmo, há um ano, passei algo assim com a minha mãe e ela não resistiu e foi a óbito”, afirma. Atualmente, segundo ela, o médico aparece apenas uma vez por semana — e já houve períodos sem atendimento. “O médico é uma vez na semana, mas já passamos meses sem médico. E à noite não tem. Falta alguém de prontidão para situações de risco”, diz. Receita famosa: peixe azul-marinho “instagramável” A gastronomia é parte essencial do encanto da Ilha Diana — e uma das personagens mais conhecidas da comunidade é Dona Zazá, cozinheira do Cantinho da Zazá, famosa por uma receita tradicional e “instagramável”: o peixe azul-marinho. Moradora da ilha há 35 anos, ela diz que não pensa em deixar o local. “Só saio daqui no dia em que Deus me levar”, afirma. Ilha Diana conta com receita tradicional e “instagramável”: o peixe azul-marinho. Reprodução/TV Tribuna Segundo Dona Zazá, o prato é antigo, mas exige técnica para chegar ao tom azul característico. “Essa receita é muito antiga. Mas ninguém nunca conseguiu chegar no azul-marinho. Ele é feito com a banana verde para poder ficar azul. Fui estudando e descobri que, para chegar nesse tom, precisa ser feito em uma panela de ferro”, finaliza.