Criminosos cobram até R$ 10 mil por mês de empresas e controlam comércio em áreas dominadas no Rio
Criminosos cobram até R$ 10 mil por mês de empresas e controlam comerciantes de áreas dominadas no Rio O avanço do tráfico de drogas e da milícia no Rio d...
Criminosos cobram até R$ 10 mil por mês de empresas e controlam comerciantes de áreas dominadas no Rio O avanço do tráfico de drogas e da milícia no Rio de Janeiro já afeta diretamente a economia de bairros inteiros dominados por organizações criminosas. Em algumas regiões, empresas relatam cobrança de taxas mensais que chegam a R$ 10 mil, enquanto comerciantes e moradores convivem com restrições sobre o que podem vender, comprar ou receber dentro das comunidades. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Uma das áreas que simbolizam esse cenário é o distrito industrial de Fazenda Botafogo, na Zona Norte do Rio. Criado para ser um polo industrial estratégico do estado, o local hoje sofre com abandono urbano, presença do crime organizado e pressão constante sobre empresários e trabalhadores. O distrito industrial de Fazenda Botafogo é dominado por criminosos Reprodução TV Globo O terceiro episódio da série especial do RJ2 sobre o avanço do crime organizado mostrou que o domínio criminoso vai além da violência armada e interfere diretamente na circulação de mercadorias, no funcionamento do comércio e até na prestação de serviços básicos, como internet e telefonia. LEIA TAMBÉM: Moradores da Muzema e Rio das Pedras sofrem com regras impostas por milicianos e traficantes Número de presos de outros estados no RJ cresce 63% em 4 anos, aponta secretaria Distrito industrial dominado Inaugurado em 1978, Fazenda Botafogo foi o primeiro distrito industrial do Rio de Janeiro. O projeto previa a instalação de empresas e a construção de conjuntos habitacionais para trabalhadores, em uma tentativa de fortalecer a economia da região. Mas o crescimento desordenado das comunidades no entorno e a ausência histórica do poder público transformaram o local em um enclave industrial cercado por áreas dominadas pelo crime organizado. Hoje, o distrito ocupa mais de 1 milhão de metros quadrados e tem capacidade para receber até 50 empresas. Atualmente, 32 companhias seguem funcionando na região, entre indústrias químicas, empresas ligadas ao setor petrolífero, reciclagem e produção de vidro. Segundo dados do próprio distrito, elas geram cerca de 14 mil empregos diretos. A região fica próxima à Avenida Brasil, à Via Dutra e a importantes polos comerciais, como Ceasa, Mercadão de Madureira, São Sebastião e Parada de Lucas. O acesso é facilitado por trem, metrô e ônibus. Apesar da localização estratégica, empresários e moradores convivem diariamente com problemas de saneamento, coleta de lixo, iluminação pública e invasões de terrenos. A reportagem do RJ2 teve informações que traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP), facção que domina a região, exigem pagamentos mensais entre R$ 4 mil e R$ 10 mil de empresas instaladas no distrito. Em uma mensagem enviada neste ano, um empresário relatou ameaças feitas por criminosos. “Tivemos novamente aquele incidente chato. um rapaz veio até a entrada fazendo ameaças e pedindo dinheiro. Ele veio na sexta-feira e retornou hoje”, comentou um funcionário. O distrito industrial de Fazenda Botafogo é dominado por criminosos Reprodução TV Globo O distrito é dividido pelo rio Acari. Um lado fica sob responsabilidade do batalhão de Irajá, o outro, do batalhão de Rocha Miranda. Mesmo assim, moradores e empresários afirmam que o controle efetivo da região é exercido pelo crime organizado. Restrição de mercadorias Em áreas dominadas pelo tráfico ou pela milícia, comerciantes relatam que determinados produtos só podem ser vendidos por estabelecimentos autorizados pelos criminosos. Um morador da Zona Oeste contou que até itens simples, como vassoura e farinha, passaram a ser controlados. “A nossa maior dificuldade é internet. A gente não tem acesso a grandes empresas. A gente só tem acesso a empresas que, ou eles permitem ou eles são os donos”, comentou. O morador também relatou que percebe aumento nos preços por causa da restrição de fornecedores. “Vassoura, por exemplo, fui comprar outro dia numa loja de material de construção (...) e quando pedi uma vassoura o rapaz me informou que não tinha vassoura porque ele não podia vender vassoura”, disse. “A loja não tá mais autorizada a vender vassoura. Se a gente quiser comprar vassoura tem que comprar da loja que eles autorizam. Tem que procurar quem tá vendendo. Eles tão redistribuindo as vendas”, explicou o morador. A equipe do RJ2 esteve na região e confirmou a proibição em conversas gravadas com comerciantes. Outros produtos também passaram a ser controlados pelos grupos criminosos, segundo relatos de moradores. “A água, aquela água de galão, tá com eles. Você não pode botar aqui. Tem que comprar lá com eles. Carvão, é com eles. Alho, é com eles. Tomate, é com eles”. “Você não pode ir lá pro Ceasa comprar, tem que comprar com eles”. As restrições afetam comerciantes, consumidores e fornecedores, além de reduzir a concorrência e provocar aumento de preços em regiões já marcadas pela precariedade de serviços públicos. Ameaças e taxas formalizadas O controle criminoso sobre a economia dessas regiões também aparece em documentos internos de grandes empresas. Funcionários relataram, por e-mail, ameaças feitas por criminosos armados contra equipes de entrega. “A gente ia com o caminhão tentar realizar as entregas, eles chegavam sempre armados, com violência e intimidando a equipe de entrega”, contou. Segundo ele, os criminosos exigiam pagamentos semanais para permitir as entregas. “Passando informações que a gente só poderia entregar lá se tivesse pagando um valor semanal”. Investigações mostram que criminosos de outros estados buscam refúgio no RJ O funcionário relatou ainda ameaças de roubo e destruição dos veículos. “E que se voltasse a entregar sem realizar esse pagamento, eles iriam furtar as mercadorias, iriam roubar o caminhão, depredar”. Em um dos e-mails obtidos pela reportagem, um funcionário afirma que criminosos “Furtaram os canhotos das entregas” e ameaçaram levar o caminhão na próxima abordagem. O documento lista 140 estabelecimentos que deixariam de receber produtos por causa das ameaças, entre eles padarias, pet shops, mercearias, restaurantes e supermercados. Outro relatório interno aponta que comerciantes informaram a cobrança de uma “taxa pedágio” de R$ 800 por semana por empresa. Diante das ameaças, a companhia decidiu suspender as entregas. “Infelizmente, a empresa teve que deixar de atender esses clientes. como a empresa não compactua com esse tipo de pagamento ilegal, a gente deixou de atender esses clientes”. Segundo o funcionário, a decisão trouxe prejuízos para todos os envolvidos. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) afirma que a insegurança afeta diretamente a atração de investimentos no estado. O gerente de infraestrutura da entidade, Isaque Ouverney, afirma que empresários consideram a segurança pública decisiva para investir. “Sem segurança pública, os investimentos não serão realizados e não ficarão no território”. Moradores também relatam sensação de abandono e medo diante do avanço do crime organizado. “A gente tá hoje refém dessa bandidagem. e nosso medo é que eles tão crescendo cada vez mais. e a gente não sabe o que que eles vão fazer amanhã”.