Asa-delta: voo duplo é permitido? Entenda as regras para pilotos e passageiros após mortes em São Conrado

Vídeo mostra queda de asa-delta que matou 2 pessoas em São Conrado A morte de um turista argentino e de um instrutor após a queda de uma asa-delta na Praia d...

Asa-delta: voo duplo é permitido? Entenda as regras para pilotos e passageiros após mortes em São Conrado
Asa-delta: voo duplo é permitido? Entenda as regras para pilotos e passageiros após mortes em São Conrado (Foto: Reprodução)

Vídeo mostra queda de asa-delta que matou 2 pessoas em São Conrado A morte de um turista argentino e de um instrutor após a queda de uma asa-delta na Praia de São Conrado, na Zona Sul do Rio, reacendeu o debate sobre as regras para a realização de voos duplos no Rio de Janeiro. A atividade é regulamentada por normas federais e esportivas, além de regras específicas para locais de decolagem, como a Rampa da Pedra Bonita, de onde a dupla partiu. A legislação estabelece exigências para os praticantes e diferencia os voos recreativos dos destinados à instrução. A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), por exemplo, proíbe a comercialização de voos panorâmicos de asa-delta enquadrados nas regras do aerodesporto, mas permite a cobrança por voos de instrução. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça A Confederação Brasileira de Voo Livre (CBVL) também estabelece critérios para quem deseja transportar passageiros, incluindo tempo mínimo de experiência, quantidade de voos realizados e aprovação em cursos específicos. Rampa do clube na Pedra Bonita, em São Conrado Divulgação No Rio, a operação na Pedra Bonita segue um protocolo próprio, que envolve o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a CBVL e o Clube São Conrado de Voo Livre. O acidente aconteceu na manhã de segunda-feira (2). O argentino Adrian Guillermo Arismendi, de 26 anos, estava como passageiro, acompanhado do instrutor Luiz Eduardo Rodrigues dos Santos, de 45 anos. Segundo testemunhas, a asa-delta fez uma curva abaixo do padrão durante a aproximação para o pouso e bateu com força no muro entre o calçadão e a areia. Quedas de asa-delta e parapente deixam 5 mortos em São Conrado em 2026; relembre os casos Câmeras instaladas em asa-delta que caiu em São Conrado gravaram voo As duas vítimas foram socorridas pelo Corpo de Bombeiros e levadas ao Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, mas não resistiram. O caso foi registrado na 15ª DP (Gávea), e o equipamento passará por perícia. Imagens de duas câmeras instaladas na asa-delta foram entregues à polícia e serão analisadas durante a investigação. Veja abaixo o que dizem as regras para a prática do voo duplo no Brasil. O voo duplo de asa-delta é permitido no Brasil? Sim. A prática é permitida, desde que respeite as regras da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), as normas técnicas das entidades esportivas e as exigências aplicáveis ao local de decolagem. A principal regulamentação federal é o Regulamento Brasileiro da Aviação Civil (RBAC) nº 103, que trata da operação aerodesportiva em aeronaves sem certificado de aeronavegabilidade. As asas-deltas convencionais podem se enquadrar nessa regulamentação, desde que atendam aos critérios técnicos previstos na norma. Brasil está na lista de melhores passeios com voo de asa delta no RJ Tripadvisor/Divulgação O regulamento estabelece que os praticantes devem estar cadastrados como aerodesportistas e comprovar conhecimentos mínimos sobre regras operacionais e utilização do espaço aéreo. Nesse enquadramento, não é exigida uma licença de piloto emitida pela ANAC nem um certificado de aeronavegabilidade para o equipamento. Isso não significa, porém, que a atividade seja livre de exigências ou fiscalização. Entre as regras estão a realização de voos durante o dia e em condições visuais, a utilização de locais autorizados para decolagem e pouso e o cumprimento das normas de tráfego aéreo estabelecidas pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA). O regulamento também proíbe operações que coloquem em risco pessoas no solo ou o sistema de aviação civil. ANAC proíbe a venda de passeios panorâmicos de asa-delta? Sim. A ANAC proíbe a comercialização de voos de aerodesporto enquadrados no RBAC 103, com exceção dos voos destinados à instrução. A proibição está prevista no item 5.5.4 da Instrução Suplementar IS 103-001E, que estabelece: "É proibida a comercialização de voos de aerodesporto que operem segundo o RBAC nº 103, exceto voos de instrução". Na prática, a regulamentação diferencia o passeio turístico remunerado da atividade de ensino de voo. O primeiro não pode ser comercializado dentro desse enquadramento, enquanto o segundo pode ser cobrado, desde que cumpra as exigências aplicáveis. A exceção permite que um instrutor receba pagamento para ensinar uma pessoa a praticar o esporte. A simples presença de um passageiro na asa-delta, no entanto, não transforma automaticamente um passeio em atividade de instrução. A distinção também é explicada pela agência no Guia Prático do Aerodesportista, que trata da comercialização da atividade. Quem pode realizar voos duplos? Além das regras federais, a Confederação Brasileira de Voo Livre (CBVL) estabelece critérios técnicos para os pilotos que desejam transportar passageiros. A entidade prevê duas categorias principais: voo duplo recreativo e voo duplo de instrução. 25° Pular de Asa Delta - Rio de Janeiro, Brasil Divulgação / TripAdvisor Voo duplo recreativo É permitido a pilotos homologados para essa modalidade, mas não pode haver remuneração ou qualquer outra contrapartida pelo transporte do passageiro. Entre os requisitos previstos na norma da CBVL estão: Ser piloto de nível 4 ou 5; Ter pelo menos cinco anos consecutivos de prática ativa; Ter realizado pelo menos 100 voos acima de 20 quilômetros; Ser aprovado em curso específico de voo duplo; Obter aproveitamento mínimo de 80% em prova teórica. Voo duplo de instrução É a modalidade que permite a realização de voos remunerados, desde que o objetivo seja a instrução de novos praticantes e sejam cumpridas as exigências aplicáveis. A norma da CBVL prevê, entre os requisitos: Ser instrutor homologado pela confederação; Ter sido aprovado em curso específico de voo duplo; Obter aproveitamento mínimo de 80% em prova teórica; Não ter sofrido sanção administrativa grave nos dois anos anteriores. A entidade também prevê a possibilidade de suspensão ou cassação da homologação em caso de descumprimento das regras. As exigências estão descritas na Norma Regulamentar da CBVL, publicada em dezembro de 2023. Quais são as regras para voar na Pedra Bonita? A Rampa da Pedra Bonita fica dentro do Parque Nacional da Tijuca, uma unidade de conservação federal administrada pelo ICMBio. O funcionamento do local segue o Protocolo Operacional da Visitação nº 01/2026, atualizado em fevereiro deste ano. O documento estabelece que a rampa da Pedra Bonita é o local permitido para a decolagem de voos livres dentro do parque. Vista de voo livre da Pedra Bonita Divulgação/Rafael Duarte A operação ocorre por meio de um acordo de cooperação firmado em 2021 entre o ICMBio e a Confederação Brasileira de Voo Livre. O Clube São Conrado de Voo Livre também participa como entidade atuadora da cooperação. Pelo protocolo, cabe à CBVL estabelecer as normas gerais de operação da rampa, o código de conduta e os procedimentos de segurança. O acordo estabelece, portanto, uma divisão de responsabilidades entre a administração do parque e as entidades que participam da operação do voo livre. Já a área de pouso na Praia do Pepino, em São Conrado, é protegida pelo Decreto municipal nº 12.799, de 1994. A legislação determinou o tombamento definitivo das rampas de decolagem da Pedra Bonita e também da área utilizada para o pouso de asa-delta e parapente. O decreto prevê que intervenções na área de pouso dependem de aprovação prévia do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural. Quem fiscaliza os voos duplos? A fiscalização envolve diferentes instituições, cada uma com atribuições específicas. A ANAC é responsável pela regulamentação federal das atividades enquadradas no RBAC 103 e pela fiscalização dentro de suas competências. O DECEA estabelece as regras de utilização do espaço aéreo. A CBVL responde pelas normas técnicas da modalidade, pela homologação esportiva dos pilotos e instrutores e pelos procedimentos operacionais previstos para a rampa. Na Pedra Bonita, o ICMBio administra a área de decolagem e participa da gestão da operação por meio do acordo de cooperação com a confederação. O Clube São Conrado de Voo Livre também participa da operação local. No âmbito municipal, há ainda regras relacionadas à exploração comercial e turística da atividade. O que diz a legislação municipal do Rio? A cidade do Rio tem uma legislação específica sobre a exploração comercial e turística de voos duplos de asa-delta e parapente: a Lei municipal nº 5.624, de 2013. O texto original estabelecia exigências como habilitação dos pilotos, alvará para a exploração comercial, seguro, assinatura de termo de responsabilidade pelos passageiros e monitoramento das condições meteorológicas. A lei também previa inspeções periódicas dos equipamentos e mecanismos de fiscalização da atividade. Outra exigência era a apresentação de históricos semestrais dos voos realizados, com identificação dos passageiros, datas e horários. O clube também deveria encaminhar a relação dos voos feitos pelos pilotos cadastrados. O que se sabe sobre o acidente em São Conrado? A queda que matou o turista argentino Adrian Guillermo Arismendi e o instrutor Luiz Eduardo Rodrigues dos Santos aconteceu na manhã de segunda-feira (2), durante a aproximação para o pouso na Praia de São Conrado. Acidente com asa-delta no Rio Arte g1 Segundo testemunhas, a asa-delta fez uma curva abaixo do padrão e atingiu com força o muro que separa o calçadão da areia. Em depoimento à polícia, o vice-presidente do Clube São Conrado de Voo Livre, José Bruno Batalha Menescal Filho, afirmou que Luiz Eduardo era piloto do clube havia aproximadamente dez anos e tinha se tornado instrutor cerca de um ano antes, após cumprir as etapas exigidas para a função. O passageiro argentino fazia seu primeiro voo de asa-delta e estava acompanhado de amigos que também participaram da atividade. O presidente do clube, Bruno Menescal, afirmou que, segundo relatos de pilotos que presenciaram o acidente, teria ocorrido um erro de avaliação durante uma manobra em baixa altura. Duas câmeras instaladas no equipamento registraram o voo. As imagens foram entregues à polícia e serão analisadas na investigação. A Polícia Civil apura as circunstâncias do acidente, e a asa-delta passará por perícia. As atividades de voo livre na região foram suspensas após a ocorrência. Em nota, o Clube São Conrado de Voo Livre lamentou as mortes e afirmou que está à disposição das autoridades para colaborar com a investigação. 21 acidentes no RJ em 2026 O Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ) registrou 21 atendimentos relacionados a acidentes com voo livre em todo o estado em 2026. Desse total, 19 envolveram parapentes e dois, asas-delta. As ocorrências deixaram 13 vítimas atendidas pela corporação. Vídeo mostra acidente da asa-delta no Rio Reprodução Na capital, foram 16 atendimentos no mesmo período: 14 relacionados a acidentes com parapente e dois com asa-delta. Ao todo, 10 vítimas receberam atendimento dos bombeiros. Os dados mostram que os registros de acidentes com parapente são maioria nas duas áreas. Em todo o estado, foram 36 atendimentos em 2024 e 44 em 2025. Na cidade do Rio, foram 17 em 2024 e 20 em 2025. Em 2025, os bombeiros atenderam 12 vítimas em ocorrências de voo livre em todo o estado, sendo seis na capital. Em 2026, embora o número de atendimentos ainda seja parcial, já foram contabilizadas 13 vítimas no estado e 10 no município do Rio.